Voltar a Keynes para resolver a crise actual

Dois prestigiados professores, do MIT e de Oxford, pegaram na teoria de Keynes e encontraram soluções para a economia de hoje.

Recuperar os conceitos de Keynes para resolver os problemas da economia actual não é uma ideia nova. Vários políticos têm falado sobre isso. E agora dois conceituados professores de Economia: Peter Temin e David Vines , um do MIT e outro da Universidade de Oxford, escreveram um livro onde recorrem às ferramentas keynesianas para explicar como solucionar os principais problemas macroeconómicos do mundo de hoje e da crise económica global. Em “Keynes – Uma teoria útil à economia mundial”, os autores usam esta argumentação para defender o fim da austeridade nos países do Sul da Europa.

Keynes, que viveu entre 1883 e 1946, ficou conhecido para a posteridade pelas medidas de combate à Grande Depressão e pelas políticas económicas do pós-guerra que contribuíram para o surgimento de uma época áurea de crescimento económico. Neste livro os autores explicam, numa linguagem acessível a não especialistas em macroeconomia, o que é que isso tem a ver com a crise de hoje. Peter Temin e David Vines recorrem às interacções entre as economias nacionais explicadas por Keynes para tirar ensinamentos para a actual crise global.

Hoje, tal como já acontecia no pós-guerra, para resolver os problemas nacionais tem de se corrigir a economia internacional e o que acontece é que, com muitas regiões do mundo a apostar na austeridade e em aumentar a procura através do crescimento das suas exportações – e isto é verdade nos Estados Unidos, na Europa como um todo, mas também na China e no resto do Leste asiático – estas políticas vão anular-se umas às outras e estaremos perante aquilo a que os autores chamam o “Paradoxo internacional da Poupança”, com todos os países a tentarem poupar ao mesmo tempo.

Na Europa, defendem, os países do Sul podem pagar à Alemanha apenas se diminuírem as importações e aumentarem as exportações durante uma série de anos. Entre as guerras , na Alemanha dos anos 20, no seu livro “As consequências económicas da paz”, Keynes defendia o mesmo, mas nessa altura este país estava na posição inversa: [a Alemanha] “Apenas poderá fazer um pagamento anual durante alguns anos diminuindo as suas importações e aumentando as exportações”, dizia.

Quando todos os países tentam poupar, sabemos o que vai acontecer
Os países do Sul não conseguem absorver grandes quantidades das exportações alemãs, as políticas de austeridade estão a forçar reduções de despesa e consequentemente das importações. Não podem por isso, por enquanto, “pensar em reduzir as dívidas – não agora, antes da procura do sector privado ter recuperado adequadamente”, defendem ainda Peter Temin e David Vines.

“O problema de haver demasiados países orientados para as exportações é a aritmética”, sublinham. Quer isto dizer, acrescentam, como pode a balança comercial positiva de todos os países gerar o equilíbrio global? É novamente o chamado “Paradoxo Internacional da Poupança”.

Qualquer país, em especial um país pequeno, pode usar uma estratégia de crescimento induzido pelas exportações sem efeitos adversos na economia mundial. Mas, quando todos os países tentam poupar, sabe-se o que vai acontecer, explicam os autores. “Os riscos para o crescimento global parecem ser imensos.Existe um risco persistente de uma crise europeia”, alertam os autores.

Devido a esta incerteza, os investidores do sector produtivo estão a adiar investimentos de larga escala. Muitos produtores pensam que não é sensato investir, tal como parece sensato aos consumidores poupar.

Conclusão: a resolução para a crise actual está em haver mais políticas internas expansionistas de alguns países, porque não podem os governos de todos os países e todas as regiões do mundo estar a apostar no retorno do investimento do sector privado para recriar o processo de crescimento. Porque, assim, “a oferta mundial agregada está acima da procura global agregada”.

Ou seja, mais duas vozes a defender que só o fim da austeridade poderá levar ao fim da recessão no Sul da Europa.

Fonte: Económico em 07/05/2015

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